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A morte de um escritor

A razão para escrever um texto sobre o falecimento de um dos principais nomes da literatura portuguesa deve-se, e limita-se, às controvérsias em torno de sua interseção, segundo o senso comum, já que não sou especialista na obra do referido autor, entre literatura e religião, neste ponto, me atrevo a escrever algumas linhas.

Antes, é preciso dizer o quanto é lamentável que alguém não possa exprimir suas idéias. Se algumas destas tomaram uma proporção maior, credita-se às incertezas e interesses daqueles que promoveram a polêmica, o problema, se há, não pertence ao autor, mas ao público.

E aqui, não se pretende defender Deus e sua existência, se há algo louco no ser humano é esta necessidade de provar a existência dEle ou, da mesma forma, provar Sua não existência.

A intenção deste texto é falar sobre nossa relação com o sobrenatural, sobre as premissas de uma fé milenar.

Em primeiro lugar, sou bastante cético quanto à existência de ateus. Tenho-os por não mais que ressentidos. Reparando a manifestação destes, estas se dão em duas vertentes, uma, a negação de sua existência por meio da “lógica”, outra, talvez em função de argumentação, ou consubstanciação da primeira, a negação de sua bondade. Ambas soam a mim como uma manifestação, não de lógica nem de bom senso, mas de mágoa, e mágoa, para mim, é uma forma, até intensa, de acreditar nEle.

A princípio, o ateísmo é uma tentativa de confrontar os crentes e forjar um novo sistema de crenças. Neste sentido eles têm bons argumentos e merecem todo o respeito. Qualquer ação que promova um pouco de razão e humanismo merece apoio, quero crer que eles têm a benção do Bom D´us para seu ativismo. Antes que alguém possa me criticar, pegue um dos inúmeros livros de história e leia! Muito do sofrimento e da dor humana receberam o belo selo religioso e eclesiástico.

Mas se tudo é uma questão de mágoa, então eles realmente estão longe de entender os sessenta e seis livros do Canon protestante, e com certeza, também não entendem os fundamentos de outras crenças baseadas em ética e compaixão.

Mas e nós, que não temos este desconforto, que vivenciamos um relacionamento extraordinário; como devemos lidar com o que é posto neste mundo?

Após certa maturidade, o atual posicionamento, meu, é o seguinte: temos três possíveis abordagens humanas de expressão.

Primeira, que chamarei de “mundanismo”, um sistema de expressão, explicita ou não de um sistema de crenças que se opõe a D´us, sua arte e ciência são fundamentadas em negar e/ou persuadir o homem a fazer o oposto daquilo que entendemos ser a vontade de D´us. Não são necessários exemplos, qualquer que tenha feito bobagens na vida e foi estimulado no momento de uma decisão por uma música, um poema ou romance, sabe o que estou dizendo.

O segundo ponto é, para mim, o maior desafio; por estar entre o mundanismo e a terceira opção torna-se o ponto de equilíbrio; a fronteira nem sempre bem definida entre estes dois sistemas de abordagem do espírito. Mesmo sendo fronteiriço, este não é espiritual. Chamarei de humanismo, sem carregar, ou talvez devesse carregar, todas as implicações que este termo possui. Mas, aqui, humanismo é apenas a expressão de sentimentos e perplexidades do ser humano, sem o assédio do mundo e seu “governo”
(1) nem, em contrapartida, a devoção espiritual devida ao Ser Supremo.

Um lugar onde a arte e a ciência apenas falam dos conflitos do ser que faz escolhas e que vive “eternas” contradições, que, ainda, nasce, cresce e morre.

Aqui não há julgamentos. Aqui há espaço para tudo que nos diz respeito, mesmo para as mágoas, para os desacertos e por que não dizer, para a incredulidade.

Nesta fronteira, se não excedida, à margem “mundana”, o homem pode experimentar o que o poeta chama de “a dor e alegria de ser”.

Uma expressão artística neste ponto, ou mesmo uma “crença” científica é legítima e, estou seguro, admirada por D´us.

É neste “espaço” que Ele, bendito Seja Seu Nome, contempla sua criação.

Fronteiras, contudo, não são lugares para ficar, para edificar casas, para “reclinar a cabeça”
(2); é apenas um lugar provisório, estreinto, perigoso, incerto (3).

Quando o homem se encontra neste, ele deve apenas aproveitar a viagem, “curtir” a paisagem, mas... Buscar pouso seguro tão logo possa.

O terceiro elemento de expressão é o de louvor e adoração, aqui sim, um lugar seguro, agradável, bom, pelo menos para os que O têm conhecido.

Os protestantes, de um modo geral, reforçam muito este terceiro lugar, como se possível fosse estar sempre ai. Talvez seja, mas até mesmo quando olhamos as escrituras, o que vemos? Que mesmo os melhores heróis da fé possuem enormes lacunas em suas “biografias”. Suas existências, por vezes seculares, correm rápidas, são ditas em poucas passagens, e naquilo que não conhecemos, como saber sua “residência”? Podemos ser positivos e pensar que estavam sempre em adoração, mas seria humano pensar assim?

Eis nosso desafio! Talvez não se deva buscar o “humano”, mas talvez não se deva fingir que neste não se está.

Nota final: mesmo não sendo um texto sobre o referido autor, não posso ignorar os comentários sobre seu anti-semitismo, que não conheço. Mesmo neste desconhecimento, atrevo-me a forjar uma opinião, a de que este anti-semitismo não era central em seu pensamento, decorria, quero arriscar, como tantos outros, como um apenso, do lastro que Israel representa na crença monoteísta, mesmo que cultural, a qual ele estava inserido.  

Marcos Mingra


1 Jo 12, 31 e Jo 14, 30

2 MT 8, 20

3 Ou vale, termo tão usado pelos protestantes.




"Todos os rios vão para o mar, e contudo o mar não se enche; ao lugar para onde os rios vão, para ali tornam eles a correr.
Todas as coisas são trabalhosas; o homem não o pode exprimir; os olhos não se fartam de ver, nem os ouvidos se enchem de ouvir.
O que foi, isso é o que há de ser; e o que se fez, isso se fará; de modo que nada há de novo debaixo do sol.
Há alguma coisa de que se possa dizer: Vê, isto é novo? Já foi nos séculos passados, que foram antes de nós.
Já não há lembrança das coisas que precederam, e das coisas que hão de ser também delas não haverá lembrança, entre os que hão de vir depois
."

Ec 1, 7 - 11
A morte de um escritor