Eliminando a poeira secular
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Um ser dividido
Certos conceitos e aprendizados são incorporados em nossa maneira de ver e agir no mundo que, por parecem expressão da verdade, ficam em um nível muito profundo, para nunca mais serem reavaliados. Os aceitamos com muita passividade e ingenuidade, em decorrência, possivelmente, de que estes entraram em nossas vidas em um momento em que não tínhamos como triá-los, seja por falta de melhores conhecimentos, seja em função de uma necessária fé não racional, como único meio de superação às adversidades do dado momento.
Um destes conceitos, muito bem arraigado em nossa cultura abrasileirada do evangelho, é o de que ao aceitar Mashiach automaticamente o velho homem morre e somos novas criaturas.
Morre nada! Este permanece vivo e forte.
Esta crença de que o velho homem é um ser sem prerrogativas e inútil só serve para nos deixar com angustias, sentimentos de culpa e fracasso e este senso de inabilidade completa.
Os melhores de nós se tornam hipócritas de carteirinha. Os “piores” simplesmente desistem.
Ok, entendemos o que a Palavra diz sobre o novo nascimento e tudo mais. Mas que tal pegar esta expressão (nascimento) e fazer valer completamente sua metáfora, usando-a de modo absoluto?
Se ao invés desta visão de um ser renovado emergindo do tanque batismal (do tipo, “lavou tá novo”), se bem que "em espírito" isto parece maravilhoso e correto, que tal pensarmos, tão somente, este rito como uma fecundação do Espírito Santo (ver parábola do semeador, para não se valer de textos do Livro de João).
Sim, como um feto ou “parasita”, algo novo que se instala no velho homem e começa a tirar as forças deste, que está condenado ao nada.
Exagero? Então, por um instante, vamos resgatar duas colocações bíblicas, a parábola do joio e do trigo e o alimento sólido do qual escreveu Paulo.
Yeshua fala de não retirar o joio antes de um determinado tempo, pois este pode danificar o trigo; o texto parece claro que são grupos de pessoas distintas, mas se você reparar bem, vera que há uma associação entre os dois. Há elementos que se confundem a ponto de se entrelaçarem mortalmente.
Aqui temos uma “comprovação” da natureza dividida do ser (por gentileza, leve esta metáfora às últimas consequências).
Quanto a Paulo, este escreve a respeito da mudança de alimento, sugerindo que o novo homem obtém um crescimento gradual.
Se assim é; algumas conclusões:
- O velho homem está ativo em nós.
- Por estar ativo, tem suas próprias lógicas e expectativas.
- As aspirações de Deus e as do velho homem são incompatíveis. Deus não gosta do velho homem e tem uma destinação de morte eterna para este e, portanto, o velho homem não deve nenhuma obrigação a Deus. Isto explica (não justifica) parte de nossos comportamentos. Isto explica a lógica daquele que “não é nascido de novo” exerce.
- Não há juízo de valor de Deus para com o velho homem, há certo respeito a este, pois não há uma aliança entre os dois. Este já está condenado e se Deus permite que este complete seus dias é devido ao tempo que lhe é dado sobre a terra; para que este experimente a oportunidade da Vida, fazendo, desta, o que bem lhe parece.
- Que nós também deveríamos encarar o velho homem com respeito e assombro, assombro por contemplar este ser morto-vivo, como aves raras e estéreis em seus belos voos.
E tudo isto posto, para que? Por uma questão de autoconsciência. Para dizer que se alguém tenta blindar o novo homem com religiosidade está entregando o galinheiro aos cuidados da raposa.
O mundo religioso é um banquete para este velho homem, ai tem tudo que lhe parece justo e bom, glória, dinheiro, afeto, divertimento e...
Então, a questão não é agir no mundo como se este ser não existisse. Fingindo que este não tem espaço, volição e astúcia.
Em vez de negá-lo ou, mesmo, combatê-lo, o novo homem deve apenas vigiá-lo, verificar se há comida disponível para este e tentar suprimi-la antes que este se sirva.
Por outro lado, o novo homem não deve procurar seu alimento, seu alimento vem do Senhor e é Ele quem dá crescimento. Não é uma ação humana, de modo algum.
Esta é nossa natureza dividida, não há conforto em descortiná-la, será sempre uma convivência penosa, exaustiva e desesperançada.
Estar consciente disto pode ser uma experiência enriquecedora na medida em que poderemos lidar com esta figura sombria, contemplar seu morrer, ainda que os dois irão, certamente, se despedir juntos deste mundo... E entender, um pouco, sobre a natureza e a ilusão de nossos desejos, que de tão antigos, parecem eternos, elaborados antes da fundação deste mundo.
Marcos Mingra
Que, quanto ao trato passado, vos despojeis do velho homem, que se corrompe pelas concupiscências do engano;
E vos renoveis no espírito da vossa mente;
E vos revistais do novo homem, que segundo Deus é criado em verdadeira justiça e santidade.
Ef 4, 22-24