Átrio dos Gentios
A Verdade e as verdades que dizemos

A falta de consciência sobre os problemas políticos ministeriais acarreta falsos debates doutrinários, contaminando ou torcendo o verdadeiro conhecimento da Palavra de D’us. De um lado, devido à manipulação direta da Palavra, de outro, pelo testemunho contraditório.
A Verdade e as verdades que dizemos.
A igreja tende a considerar apenas os assuntos espirituais e religiosos.
Sob este manto, com as sempre raras e abençoadas exceções, as disputas políticas são encobertas. Esta “distração” se dá por dois erros geminados, o primeiro, um tanto cínico, por entender que política não deva ser assunto da igreja, o segundo, para consubstanciar o primeiro, valendo-se da ignorância, por entender como política, o debate político partidário.
Esta conveniência eclesiástica acaba escondendo os problemas políticos que existem deste sempre na igreja e antes dela, criando tensões, sofrimentos, ressentimentos e, mais cedo ou mais tarde, rompimentos.
Primeiro, devemos entender o que é política. Sem querer aprofundar, apenas para entendimento deste texto, usaremos uma definição não comum, mas singela: política é repartição de poder, ou seja, como o “bolo” é dividindo entre os “participantes da mesa”. Pode ser por consenso, ou dito democrático, ou não, com nomes como teocracia, tirania, despotismo, etc.
É uma pretensão da igreja julgar a sim mesma pura e santa. Homens tendem a querer ocupar um espaço, há razões honestas ou não para isto, há explicações psicológicas e sociologias, que não nos interessam aqui.
A questão não é tanto se é correto ou não fazer política na igreja, a questão é a falta de consciência. A suposição infundada de que as exigências políticas não estão na pauta eclesiástica.
Mashiach Yeshua, Bendito é Seu Nome, foi único em compreender sua situação frente aos acontecimentos políticos de sua época e frente às necessidades do Reino. Conhecia bem os limites entre estes dois campos de ação e transitava neles com plena sabedoria, deixando os demais protagonistas em perplexidade constante.
Entre tantos bons exemplos, apenas para ilustrar:
“Respondeu Yeshua: ‘Eu lhes farei uma pergunta. Respondam-me, e eu lhes direi com que autoridade estou fazendo estas coisas. O batismo de Yochanam era dos céus ou dos homens? Digam-me!’ ” Mc 11, 29 e 30.
A forma como Yeshua confronta aqueles que estavam preocupados com o “bolo” era expondo sua ambição impar, sacrificar-se, bem como a destruição iminente do próprio bolo, ou seja, o Templo e tudo o que significava para a Nação Eleita.
Esta geração pede um sinal, mas nenhum sinal será dado senão o do Profeta Yonah. Lc 11, 29.
Perfeito! A subversão é clara.
Temos por certo, que nossa sobrevivência física ou emocional, depende de tomar a parte que “nos cabe”. Poder, portanto, está associado com a vida, e assim, algumas passagens são desconfortantes por serem contraditórias com o pensamento comum:
“Quem procurar preservar sua vida irá perdê-la, mas quem a perder acha-la-á”. Lc 17, 33.
E não só isso, somos assediados por um coração nada confiável e somos incapazes de emitir juízo:
“A boca fala o que transborda do coração”. Lc 6, 45 frg.
Um corrupto tende a ver corrupção em tudo e em todos. Uma pessoa que só vê seus interesses tende a ver os demais como pessoas que farão tudo para obter vantagem.
Assim Mashiach foi analisado.
Não apenas seus antagonistas, mas também seus seguidores não souberam lidar com a política. A discussão que travaram entre si é clara em seus intentos.
“Surgiu também a discussão entre eles, acerca de qual deles era considerado o maior” Lc 22, 24
E isto depois de falar sobre o traidor e antes dos acontecimentos da morte de Yeshua.
Estabeleceram, pois, uma disputa sem ao menos compreender o ensino de Mashiach. Tal pretensão quando analisada por nós, que sabemos o que sucedeu a estes apóstolos, chega a ser estranha e sem sentido, mas deveria nos encher de espanto e “algum” temor.
E a reflexão é: até que ponto uma vitória política é uma vitória de D’us? Nossa cartilha (o recorte é o protestantismo) é uma cartilha, do ponto de vista político, vencedora. Foi o braço de D’us?
Ora o Judaísmo está firme e forte. O catolicismo, a partir deste ponto de vista, tem mais prerrogativa que nós.
Todos, diante das contradições entre estas, estão certos?
Então uma vitória política não é necessariamente lastro para a fé.
É evidente que D’us, providencialmente, tem preservado elementos importantes da fé por meio de homens que defenderam as causas da fé com, mais ou menos, interesses pessoais.
Assim, se um conceito é correto, a volição de sua defesa será maior e nunca será isenta de uma realização pessoal.
Tal realização pessoal nunca irá garantir que todas as suas intenções são boas. Assim, os seres humanos e, particularmente aqueles que ombrearam pela defesa de nossa fé, não garantiram nem garantem para si correção, ou absolvição, em todos os seus atos, palavras e conceitos.
Isto vale para os Pais da Igreja e vale para a igreja da esquina. Lembrando que o herdeiro nem sempre é o filho escolhido pelo pai, mas o mais hábil, o mais determinado, para não dizer, o mais beligerante ou ainda o menos escrupuloso.
A realização pessoal é importante, sem dúvida, nesta realização estão os estímulos, a vontade e a motivação para justificar a vida, para tocar o barco adiante. Pelo menos até um ponto em que o servo realmente morra em Yeshua e viva como que “esquecido de si mesmo” (um bela expressão), conforme aqueles que vivenciaram os acontecimentos que precederam o martírio, registrado em expressões como
“Viver é Mashiach e morrer é lucro”. Fp 1, 21.
Em qualquer situação, onde a defesa da fé não se faz acompanhar por este sacrifício (incluindo: sujeição, perdas, humilhações, etc) fica evidente uma defesa pessoal. Mesmo em casos extremos, como a expulsão de apostatas há preservação pessoal ou coletiva e é uma solução política, mesmo que em parte.
Assim é importante que as coisas sejam tratadas como elas são, para o bem da fé. Uma discussão ou uma diferença deve ser tratada como uma disputa política, o manto “espiritual” precisa ser retirado para que a boa doutrina não seja nem torcida nem envergonhada, são dois aspectos da negação de Mashiach, da Lei e dos Profetas.
Marcos Mingra