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A Chave de Eufrásio
As quatro "vias" espirituais

Todos seguem uma jornada espiritual, como fazem, como se relacionam com o sobrenatural, como manifestam e compartilham politicamente esta jornada... Isto vai de cada um.

Um dos maiores desejos humanos, neste aspecto, é talvez vivenciá-los em grupos, de prevalecer sobre outros, de obterem mútua validação, mesmo que em meios a consentimentos mais ou menos contrariados. Talvez para livrar-nos desta solidão e, sobretudo, visando a hora de apresentar seus resultados, como se coletivamente pudéssemos ser julgados.

Como é a tua jornada espiritual? Você tem consciência desta?

Aqui, neste texto, vou tentar resumir minha, que talvez seja a mesma de boa parte dos protestantes... Tenham eles consciência disto ou não, concordem eles com o exposto abaixo ou não. Há elementos que não poderão ser contestados.

Vamos lá...

Represento esta jornada em quatro “vias”. O espiritual propriamente dito, ou supernatural,  o escriturário, o relacional e, por fim, o vivencial. Estas são as vias da relação e da manifestação espiritual e como esta “se registra” em nossa história.

Mesmo não sendo um registro cientifico, muito irão concordar que é uma classificação razoável sobre como nossas decisões são tomadas.

O espiritual

O homem não é um ser racional, ou melhor, o homem não é puramente racional, ou melhor, o homem é meramente racional, ou acidentalmente racional. Que importa, sua manifestação racional tem melhores possibilidades com o escriturário e esta quase nunca é usada, mas retomemos...

O ser humano é um ser conectado e sem volição (este é um ponto importante, não temos volição, nem mesmo quanto aos desejos, que julgamos ser intrinsecamente nossos; quem saberá?).

Penso, portanto, que boa parte de nossas decisões são baseadas em “instintos”.

São aquelas escolhas instantâneas, quando solicitadas sob certa pressão; são vitais quando não temos tempo para checar as outras três vias racionalmente (ou mesmo quando não queremos raciocinar).

Estão presentes em nossas inclinações e desejos. Estão nos pequenos detalhes, nas inferências, na linguagem corporal, neste senso de preservação e, sobretudo, nesta esperança de um paraíso sempre possível.

Aliás, esta via é a via da busca pelo paraíso perdido. A ela damos conotação religiosa e acabamos com preocupações políticas. Mas é essencialmente humana e angustiante. Nosso desejo de “voltar para casa“. Este “vulto sempre presente”.

Nesta via, os condutores de nossa vontade, são espirituais. Pertencem “a outra dimensão”. Aqui temos o reino do dualismo, do Bem e do mal; da Eternidade e fé versus imortalidade e presunção. Do ético e do estético.

No caso protestante, este Bem está associado a um Deus Verdadeiro contra o mal de hostes infernais. Aqui os dois caminhos espirituais tem destinos certos, céu ou inferno. Todas as nossas decisões espirituais são tomadas dentro deste conflito e desta tensão. 

Sem conselheiros espirituais, nossas decisões poderiam ficar suspensas ad-eternum. Buscamos intuitivamente auxílio sobrenatural para facilitar as coisas.

Neste ponto, fazemos uma caminhada acompanhados por testemunhas invisíveis. Aqui há um relacionamento tão intenso quanto qualquer outro, se não mais, uma vez que as possibilidades de rupturas não se dão como com os nossos companheiros de viagem, outros humanos.

É possível buscar estes relacionamentos, mas talvez seja arrogância nossa, provavelmente somos apenas achados deles, a isto, talvez, os gregos antigos, chamassem de caprichos dos deuses, mas este não é meu forte.


O escriturário

Para falar deste, sigo falando do anterior, pois se contrapõe ou validam entre si, e este talvez seja o aspecto mais questionado por muitos, sobretudos, por aqueles “mais” racionais.

Como não temos carteiras de identificações para estes agentes espirituais, e como seus conselhos podem, em função do mais que provável dualismo exposto acima, serem contraditórios, temos a necessidade de ter livros explicativos.

No caso protestante, temos 66 livros. Como chegamos a estes é outra história, mas fizemos nossa escolha. Cada um de seus seguidores fez seus próprios testes de validação. Eu fiz e faço os meus. Insisto nestes livros e vou seguindo.

Outras religiões também têm seus livros, há mesmo quem, por não estar vinculado a nenhuma religião, faça o seu próprio compendio, ou seja, a sua própria bíblia ou biblioteca. Vale de tudo, de canções a livros muito antigos. Até ateus e céticos têm os seus.

Esta escrituração é outro elemento de ajuda decisória, mas, antes, cabe a pergunta: o espírito não seria suficiente? Sim se, primeiro: soubéssemos quem é tal espírito conselheiro da vez; segundo, que confiássemos neste e terceiro, se não existisse disputais no reino espiritual.

Para o protestante, a Bíblia, é vital. Deus Todo poderoso precisa de ajuda? A ajuda é para nós. Aquelas duas opções espirituais, acima citadas (didaticamente definida como Bem e mal), na prática funcionam em três modos: O Verdadeiro, o mal e o aceito.

O Verdadeiro ajuda a todos os vivos, e apesar de agir perfeitamente, e não vou estender os motivos aqui, concede, apenas para resumir, o tal do Livre Arbítrio. Não nos força ao erro.

O Verdadeiro permite apenas as decisões que podem gerar um mundo melhor, mesmo que os homens apresentem péssimas escolhas, sempre ocorrerá o “menos pior”. Portanto, todas as nossas decisões têm um limite aceitável. O Verdadeiro, ainda, concede Sua graça em permitir um caminho excelente, o Caminho da Retidão.

O “mal” quer justamente o contrário, e todos nós parecemos rejeitá-lo, são pouquíssimos os que deliberadamente querem esta “ajuda”, sua associação é baseada na mentira da imortalidade do espírito em carne. Aqui é o domínio da megalomania.

O terceiro, o “aceito”, é o grande problema da via puramente espiritual. Aqui este espírito confunde-se com o Verdadeiro, quando, na realidade, pertence ao mal.

Este terceiro é o domínio do engano. Onde auto-preservação se mistura com o Bem, o Eterno com o imortal. Onde o conforto esquivasse da ética.

O escriturário, portanto, serve apenas para desmascará-lo, pelo menos em nossa proposta protestante. Ou seja, o escriturário é o crivo, como um segurança à porta de um prédio, pedindo a identificação do espírito.

Este espírito pode ser chamado de ídolo doméstico, pois é um espírito de preservação, entrou na “família” quando proveu algum meio de superação de dificuldades, sem um respaldo ético. Por ter provido ajuda, suas idiossincrasias, são aceitas, são justificadas, mesmo que seja um homicida, exemplo: alguém no passado alcançou a condição de escravagista, fez toda a espécie de maldades para valer seu “negócio”, este negócio trouxe conforto e permitiu bons estudos as seus descendentes, depois “desapareceu” no tempo. O “bem” e o mal estão lá. Bônus e ônus. Quando seus descentes tiverem conflitos éticos, todos estes bônus e ônus estarão presentes e nenhuma decisão espiritual será tomada sem o assédio deste ídolo doméstico. Por entrar muito cedo na vida de determinada pessoa, por meio do ambiente doméstico, este ídolo, mesmo homicida, estará dando conselhos ao homem.

Neste ponto, todos os homens nascem em um ambiente com mais ou menos ídolos domésticos, nascer em uma ambiente com poucos irá facilitar e muito a vida da pessoa, mas, por outro lado, tal facilidade pode minar a autoconsciência deste Bem, negligenciando aos poucos e permitindo que outros espíritos assediem, para então, quando um conflito inédito surja e uma decisão tenha que ser tomada.

Resumindo, se as coisas estão bem, temos a tendência de permitir que o Verdadeiro seja o conselheiro em nossas decisões, este é o senso natural de justiça do homem, como quando nos horrorizamos com coisas negativas vindas de longe.

Mas este Conselheiro dificilmente será ouvido quando decisões, com consequência indesejáveis para nós, devam ser tomadas.

Neste ponto, apenas a regra escriturária pode garantir a persistência em ouvir o Verdadeiro conselho. É a fé ou, como sugere Rm 12, 1, o nosso culto racional.

A via relacional

“Se alguém diz: Eu amo a Deus, e odeia a seu irmão, é mentiroso. Pois quem não ama a seu irmão, ao qual viu, como pode amar a Deus, a quem não viu?” 1 Jo 4, 20.

O outro também é nossa via decisória, seja como meio ou fim, seja por meio de conselhos, seja por meio do impacto de nossas próprias decisões... Seja como participante, seja como resultado de nossas escolhas. A relação entre pessoas talvez seja a finalidade última de nossas ações. Céu e inferno é a finalidade última de nossas ações, dirá alguém, pode ser, estas estão mais relacionadas entre si do que imaginamos e, a bem da verdade, temos bastante consciência desta relação de causa e efeito.

“No outro” temos a manifestação ampliada da primeira via, a espiritual, o Bem e o mal estão se relacionando conosco por meio da via espiritual dos outros.

Podemos ser anjos ou demônio na vida dos outros. A maioria de nós é assim na maioria do tempo. Podemos ser bons conselheiros ou maus, dependendo de nossas duas vias anteriores. Podemos ser benção ou maldição, conforme nossas decisões são tomadas. Decisões de autopreservação ou decisões éticas.

Assim, exercemos de fato nossas vias, beneficiamos ou não os outros e também somos beneficiados ou não com os outros. Há muito em jogo nesta via. É nesta via que somos testados.

O vivencial ou existencial

A última via, talvez a primeira e última via, de fato do homem; aquilo que é só nosso. De certo modo, nem Deus está nesta via, pois Ele nos deu o já citado livre arbítrio.

Nesta via, caminhamos terrivelmente sós. Exagero? Não é este o sentido de “Eli, Eli, lama sabactani“?

É uma via decisória, uma vez que experiência de vida, uma vez praticadas as três vias acima, nos concede um repertório de conhecimento que irá determinar nosso futuro.

Mas também é o caso de se perguntar se não haveria de ser a experiência futura (ou seria apenas a primeira via) a determinante de  nosso passado? Assim, na via vivencial tudo se completa, tudo se liga.

O Espiritual e o outro se fundem em nós. Somos o registro vivo da criação. A unicidade dentre as  possibilidades. Um repertório quântico na eternidade. Esta é a via da realização. Do real, do experimentado, do provado.

A vida então não passa de uma seqüência de portais decisórios, podemos ficar parados nestes, podemos atravessá-los com um acordo com o mal (para ser cobrado no último portal), ou podemos simplesmente vencê-los com o Bem. Podemos adoecer a alma neste trajeto ou podemos experimentar a liberdade de poder olhar a nós mesmo dentro deste real, por meio de uma autoconsciência, ou consciência limpa (conforme 1 Pe 3, 21)

Só neste último portal é que a saberemos o destino de nossa via e da correção de nossas escolhas. Em nosso caso protestante, se condenados ou salvos, só então saberemos o sentido desta caminhada (Jo 16, 23, naquele dias nada me perguntareis).


Marcos M.

Pós-texto: Se observarmos, Mashiach andou nestas quatro vias, com o objetivo de que aprendêssemos com Ele. Na primeira, separou o Santo do profano, louvava a Deus e confrontava o mal. Ele fez uma distinção como nenhum outro profeta em Israel fez sobre rejeição ao mal, deu-lhe nome, significado e propósito. Quanto às escrituras, fez menção destas em pontos de conflito. No relacional, instruiu e agiu em favor do outro (“não há amor maior que este, dar a sua vida em favor de seus amigos“). No vivencial, não teve outra ambição se não a de cumprir seu bom propósito (“e como queria que este fogo estivesse aceso“).



..Assim diz o Senhor: Ponde-vos nos caminhos, e vede, e perguntai pelas veredas antigas, qual é o bom caminho, e andai por ele; e achareis descanso para as vossas almas; mas eles dizem: Não andaremos nele.

Je 6, 16
Quatro "vias"